Quando o veículo sofre um sinistro e precisa passar por reparos, é comum que a seguradora sugira o encaminhamento para uma oficina credenciada ou referenciada. A promessa geralmente envolve benefícios como desconto na franquia, fornecimento de carro reserva por mais dias ou garantia estendida no serviço.
No entanto, quando surgem problemas como atraso excessivo na entrega do automóvel, serviço defeituoso, avarias adicionais, multas registradas durante a custódia ou até mesmo furto de acessórios, as seguradoras frequentemente tentam esquivar-se de suas obrigações. O argumento mais utilizado pelas companhias é o de que a escolha final do estabelecimento cabe ao cliente e que a relação de reparo é estritamente entre o consumidor e a oficina. Sob a ótica do Código de Defesa do Consumidor (CDC) e do direito civil brasileiro, essa alegação da seguradora não se sustenta.

OFICINA CREDENCIADA: A ESCOLHA É REALMENTE APENAS DO CLIENTE?
Ainda que o segurado possua a prerrogativa de optar por uma oficina de sua livre escolha, a indicação de uma rede credenciada pela seguradora cria uma legítima expectativa de qualidade e segurança no consumidor.
Com base no princípio da boa-fé objetiva (Art. 4.º, III, do CDC) e no dever de informação, a indicação feita pela seguradora funciona como uma chancela de confiança. O consumidor entende que o prestador credenciado foi previamente auditado, qualificado e homologado pela companhia de seguros.
Do ponto de vista jurídico, ao direcionar ou sugerir o serviço:
- A seguradora integra a cadeia de fornecimento de serviços (Art. 7.º, parágrafo único, do CDC).
- Estabelece-se a responsabilidade civil objetiva e solidária entre a seguradora e a oficina referenciada.
- O consumidor não é obrigado a arcar com os custos de negociações paralelas ou falhas de gestão de estoque de peças da credenciada.
QUAIS SÃO AS RESPONSABILIDADES LEGAIS DA SEGURADORA?
A responsabilidade da seguradora pelo serviço prestado pela oficina credenciada abrange diversos fatores materiais e contratuais. Entre as obrigações e garantias legais do consumidor, destacam-se:
1. Garantia e Refazimento do Serviço
Caso o veículo seja entregue com pintura desalinhada, problemas mecânicos remanescentes ou vícios ocultos, a seguradora responde solidariamente pela refazimento integral do reparo, sem qualquer custo adicional de franquia ao cliente.
2. Atraso Excessivo no Reparo
Embora a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) estabeleça prazos para a liquidação de sinistros (geralmente de 30 dias a partir da entrega da documentação completa, ressalvadas pendências justificadas), a retenção injustificada do bem por meses gera direito à indenização por lucros cessantes ou danos morais, dependendo do impacto no cotidiano ou na atividade profissional do proprietário.
3. Guarda e Conservação do Veículo
A partir do momento em que o veículo entra no pátio da oficina credenciada, a responsabilidade pela sua integridade física é integral. A seguradora e a oficina respondem por:
- Furto ou roubo do veículo ou de seus pertences/acessórios internos.
- Novas avarias ocorridas durante o período de pátio ou testes na via pública.
- Multas de trânsito geradas por funcionários da oficina durante o período de custódia do bem.
Visualização de Risco Patrimonial: Além do desgaste emocional, o prolongamento indevido do reparo e a execução inadequada de serviços afetam diretamente o valor de revenda do automóvel, causando depreciação acelerada. O seguro deve atuar como uma ferramenta de proteção ao patrimônio, e não como uma fonte de perdas financeiras. Para entender como a gestão de apólices e seguros se encaixa na proteção global dos seus bens, consulte as diretrizes de gestão de riscos e planejamento patrimonial.
Oficina Credenciada vs. Oficina Particular
Quem assume a responsabilidade jurídica e financeira em caso de falha no reparo?
Oficina Credenciada: Solidária e Objetiva. A seguradora responde juntamente com a oficina por atrasos, má execução ou vícios ocultos (Art. 7.º e 14 do CDC).
Oficina Particular: Exclusiva do Estabelecimento. A seguradora responde apenas pelo pagamento da indenização do orçamento aprovado.
Oficina Credenciada: Garantia Dupla. O consumidor pode exigir o refazimento do serviço diretamente à seguradora, sem novos custos.
Oficina Particular: Garantia Direta. Qualquer defeito na pintura, funilaria ou mecânica deve ser cobrado exclusivamente da oficina.
Oficina Credenciada: Proteção da Seguradora. Responde por furtos de peças, novas avarias ou infrações cometidas durante a custódia.
Oficina Particular: Apenas Oficina. Aplica-se o dever de guarda do estabelecimento contratado (Súmula 130 do STJ).
Oficina Credenciada: Habitualmente oferece desconto/parcelamento na franquia e prazos estendidos de veículo reserva.
Oficina Particular: Sem descontos na franquia e limite estrito dos dias de carro reserva fixados na apólice.
COMO PROCEDER EM CASO DE CONFLITO COM A SEGURADORA?
Para resguardar seus direitos de forma eficiente, o consumidor deve adotar procedimentos estratégicos de documentação e formalização da reclamação:
- Atendimento via SAC e Registros Oficiais: Fazer o contato inicial com o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da seguradora. É indispensável anotas todos os números de protocolo, nome do atendente, data e horário. Em ambiente digital, e-mails de confirmação e registros no portal da seguradora servem como prova documental do pedido.
- Acionamento da Ouvidoria: Se o problema não for resolvido no prazo estipulado pelo atendimento primário (geralmente em até 5 dias úteis, conforme regulamentação da SUSEP e do Decreto do SAC), o consumidor deve abrir um chamado na Ouvidoria da seguradora, munido dos protocolos anteriores.
- Notificação Extrajudicial e Órgãos de Proteção: Permanecendo a inércia, é possível registrar reclamações na plataforma pública Consumidor.gov.br, no PROCON de sua região e formalizar uma denúncia junto à SUSEP.
O QUE FAZER QUANDO A SEGURADORA RECUSA SOLUCIONAR O PROBLEMA?
Quando a via administrativa não surte efeito, o segurado pode buscar reparação no Poder Judiciário. Por meio de ação judicial própria, é possível pleitear:
- Obrigação de Fazer: Determinação com multa diária (astreintes) para que o veículo seja devidamente consertado ou para disponibilização de carro reserva equivalente enquanto durar o conserto.
- Indenização por Danos Materiais: Reembolso de despesas com locação de veículos de terceiros, táxi, transporte por aplicativo, aluguel de transporte para trabalho e lucros cessantes.
- Indenização por Danos Morais: Devida nos casos em que a privação do bem ultrapassa o mero aborrecimento cotidiano, violando a legítima expectativa de uso e gerando transtornos desproporcionais à rotina do consumidor.
A orientação técnica de um profissional especializado em Direito do Consumidor e Proteção Financeira possibilita quantificar adequadamente a extensão das perdas e estruturar a defesa dos direitos patrimoniais do segurado.
BIBLIOGRAFIA E FONTES OFICIAIS
- BRASIL. Lei n.º 8.078, de 11 de setembro de 1990. Código de Defesa do Consumidor. Diário Oficial da União, Brasília, DF. (Especialmente Arts. 6.º, 7.º, 14 e 25).
- BRASIL. Lei n.º 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil Brasileiro. (Especialmente Arts. 186, 757 e 927).
- SUPERINTENDÊNCIA DE SEGUROS PRIVADOS (SUSEP). Resolução CNSP n.º 432/2021 e normas regulamentares sobre operações de seguros de danos e prazos de regulação de sinistro.
- SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA (STJ). Jurisprudência consolidada sobre a responsabilidade civil solidária das seguradoras e oficinas credenciadas (Terceira e Quarta Turmas).
Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas/SP. Pós-graduado em Direito Empresarial pela Escola de Pós-Graduação em Economia e pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas. Vivência jurídica profissional desde 1999 no Ministério Público do Estado de São Paulo com Direitos Difusos e Coletivos e no Tribunal Regional do Trabalho da 15.ª Região com Direito do Trabalho. Advogado desde 2002 no Direito Privado e Planejador Financeiro, com prática na convergência entre Direitos, Planejamento Patrimonial e Educação Financeira. Sua produção editorial é dedicada à disseminação do conhecimento técnico e educativo sobre Proteção Patrimonial, Renegociação Consciente de Dívidas e Direitos do Consumidor.









